Dois Marinheiros na Margem - Eugénio de Andrade e Garcia Lorca

01-01-2018

Um recital, um convite para navegar: Mundo liso, mar frisado, cem estrelas e um barco; palavras de Federico García Lorca, traduzidas pelo poeta Eugénio de Andrade, no poema DOIS MARINHEIROS NA MARGEM.

Mar e Canção são o movimento e a invocação dos poetas "sedentos de ser", que "procuram uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência". Nenhum poeta espanhol fascinava tanto Eugénio de Andrade como García Lorca:

Às vezes surgiam versos de outros poetas: de Antonio Machado, Amado Nervo, Juan Ramón Kiménez (Por el mar vendrán/las flores del alba...), mas era a poesia de Lorca o sortilégio maior. Era o seu mundo dionisíaco, terrestre, elemental, turvo, possesso de morte, numa palavra: trágico, que ali, diante do Tejo ou ao longo da Avenida da Liberdade, me marcava indelevelmente.

Espanha e Portugal são neste recital dois remos de um só barco, aquele que navega pelo "mar que sorri ao longe". Espanha, traduzida e cantada nos poemas e canções de Lorca, é "canção escrita nas areias de Laga" no ciclo de canções sobre poemas de Eugénio de Andrade, Mar de Setembro, de Fernando Lopes-Graça, o compositor português que deu a Portugal uma fonte de pedra perene para beber directamente da raiz, segundo E. Andrade: Era da sua música que gostaria de falar, se soubesse, pois do cidadão exemplar que Fernando Lopes-Graça foi, e continua a ser, já todos mais ou menos falámos ... Era dessa música, de cuja divulgação nunca se fez grande caso, que conviria falar, enquanto não nos for possível fazê-la ouvir. É que raras vezes, como aqui, o rosto português se reflectiu e demorou nas suas águas, tanto quanto um rosto fugidio e inseguro se pode demorar seja onde for. ... Fernando Lopes-Graça não abdica de sonhar essa aliança primogénita entre palavra e música, fazendo de ambas uma única e crispada alegria.

Este recital é assim uma visitação ibérica ao mundo singular da Alma Poética, encontrando em Eugénio de Andrade e García Lorca o olhar gémeo que convida, fascina e revela.