Palavras

O que é que dá vida à vida

Artigo do poeta António Oliveira sobre o meu livro no Jornal "As artes entre as Letras" - Sei o Tamanho da Eternidade

Saber o tamanho da eternidade é saber a dimensão da vida e da morte. É ter a audácia de encher uma ânfora com toda a água do mar sem que ela transborde de solidão. Foi o que fez Ana Maria ao escrever este livrinho, a transbordar de tantas águas caminhantes sobre o vermelho da terra.

O tamanho da eternidade é proporcional à solidão do mar. «Estou sozinha,/profunda e magicamente sozinha/como está o mar», repete várias vezes o sujeito poético que é ao mesmo tempo ele, ela e eles. Porque são iguais neste monólogo de carácter coloquial, mas onde a voz é a mesma e única, num só nome: Mar. Por isso, estar nas tuas mãos é estar nas minhas, estar no mar é estar em ti. Com a água do mar, o meu espírito funde-se no teu. A eternidade começa em ti e acaba em mim, começa em mim e acaba em ti. Ou seja, começa em mim e acaba em mim. Porque só a água abre-se à luz, só a água justifica quem somos.

Saber o tamanho da eternidade, é saber entrançar todas as águas da vida num mundo de confluências, de cruzamentos e de convergências para o mar e para a-mar. Porque, nesta poesia de Ana Maria Pinto, mais visionária do que sentimental, a questão fundamental é saber reencontrar-se consigo próprio para tentar dar resposta à questão mítica desde que a carne se fez verbo ou 'a gota de água se transformou em palavra'. E a questão é essa: quem sou eu? Toda esta escrita poética gira em redor desta questão, até porque a essência da arte é uma tentativa de dar resposta à questão «o que é que dá vida à vida?».

No dizer de Steiner, Deus teria criado o homem para colmatar a sua solidão. Do mesmo modo, o homem criou os mitos, as lendas, os símbolos, para suprir a sua carência e saciar a sua sede de saber. O símbolo mais significativo, presente nestes versos, é o da água: a água na sua fluidez e na sua profundidade, a água materna permanente e vital, a água viva nos seus movimentos, a água pura e salgada das lágrimas e a água poroso dos sonhos. O psicólogo francês Gaston Bachelard considera que a única prova possível da existência da água, a mais convincente e a mais verdadeira é a sede (La poétiqe de la rêverie). Sem sede não poderia haver água. Sem água não haveria fonte ou nascente de vida. Não é por acaso que, ao longo do texto, o elemento feminino consubstancia-se com as águas, que são ao mesmo tempo, fluxo e refluxo, lugar de gestação onde as águas masculinas vão desaguar: «Como é ser água com a água feminina», interroga-se o sujeito poético. Ora, todas as águas que desaguam nas águas femininas são a forma da vida.

Da água nascem os homens e os deuses com eles, os mitos e as lendas. No ato de leitura deste livrinho, sentimos, através do halo de significações, que nos proporciona a linguagem poética, um entroncamento de lendas, nomeadamente a lenda da Senhora do Lago que entra pelas águas brumosas de Avalon: «Uma mulher de cabelos ruivos / com uma cruz tatuada no pulso. / Pela manhã vestiam-se de branco para entrar com a neblina no rio». Mistérios sempre por desvendar. Nessas águas, confluem outras personagens femininas fundamentais para a construção da lenda, como Morgana e Morgause; sentimos ainda a presença da história bíblica de Moisés transportada para o mito de Obaluaé, (da Mitologia Iorubá) que foi encontrado na orla do mar, abandonado por Nanã, sua mãe e recuperado por Iemanjá. Talvez por isso, e porque só a poesia permite o devaneio, o viandante procura uma história, que só pode ser a dele, (igual à de todos nós) e, sorrindo, «pousa os olhos na água e começa a escrever este livro», que é uma história de amor e de mar que ocorreu muito longe da memória. Na água do mar, as sereias são constelações e Plêiades, as velas são navios naufragados, a terra é o céu. Batizados pela água do mar somos um só corpo, um só espirito, e descobrimos então que a água é o sangue da terra. É como este livrinho dividido em duas partes, o mar / amar, a terra/ o mar, formando um todo, num instante de amor.

A linguagem poética caracteriza-se pela sua harmonia entre significado e significante. Isto é, pelas emoções que se transmitem, mas sobretudo pelo modo como essas emoções são transmitidas. A poesia, no dizer de Mallarmé, é dança, e por isso acompanhada pela música. E de música sabe Ana Maria, ela que é cantora do 'belo canto' e exímia pianista. Escrever poesia é fazer da palavra poética um mundo encantatório e feérico com imagens deslumbrantes e metáforas sublimes e originais; é recorrer ao engenho e à arte colocando palavras umas a seguir às outras de modo a musicar o texto poético com ritmo e sonoridades, utilizando os vários recursos fónicos.

A água é a dominante do discurso fluido, da linguagem sem quebras, da linguagem continua, da linguagem que adormece o ritmo. Se tivermos os ouvidos da mente bem iluminados, ao lermos estes versos, ouvimos, a fluidez da água nas várias assonâncias, em particular na vogal 'a', recorrente em várias palavras, assim como as liquidas 'l' que sugerem movimento e fluência no verso. Um movimento lento marcado pelo advérbio de modo em 'ente': «mil cores evaporam a água / e deslizam agora / suavemente / pelo nosso corpo / intensamente unido ou ainda, «Adormeciam depois, suavemente, / na superfície recôndita daquela flor».

Entre as variadíssimas imagens e metáforas, algumas deixam-nos de boca aberta pelo encanto que nos provoca a sua dimensão pictória: «É intensa a melodia e é nossa, / um círculo de ponto e linha até ti.»; «onde os olhos se abrem / como tremendos muros de água»; «Os ramos estendidos sobre a água formam uma aberta de luz, / a única luz que lhe levanta os olhos sempre que os abre».

Em síntese, todo o ser que pretende saber o tamanho da eternidade tem que acreditar na luz incandescente da fantasia, alimentada por todas as utopias iluminadas por todas as constelações deslumbrantes, porque a eternidade é tão exangue como um livro branco, é tão inacessível como a palavra escrita antes de ser lida. E quando, por magia, abrimos, de mansinho, o livro que desde há muito nos espera, nele descobrimos as essências de todos os mundos, e a partir desse momento, a eternidade estará ao nosso alcance e a insustentável leveza do ser mais pura!

António Oliveira

Do verdadeiro querer

É quando nós nos perdemos dos outros, que um leve e epidémico desespero habita o peso de cada objecto. Todos os objectos mortos pelo corpo, morrendo-nos o corpo pelos objectos ... Onde foi que nos desencontramos? É por nós mesmos que nos damos a tanta morte?


Porém daquela alma fora de nós, (nós daquela Alma) são agora mais nítidos todos os fragmentos de música... Que estranho e triste contra senso...parece-nos que a alma ganha gravidade sobre a respiração, de tanto suster o fôlego, nós, estupidamente alegres e imersos na matéria colorida e morta daqueles mil objectos. Morrerem-nos assim as horas, tendo todo o peso da alma sobre o coração.

E a insistência daquela voz, da Voz, que por vezes ouvimos de nós para nós, objectos...que tens no pulso, tu? Horas que se esvaem...não cumpres o sangue que te corre, não te importas dele, cumpres as horas e as horas só, que se esvaem pelos pulsos, tu objecto de ti mesmo, digo-te... deixaste que as palavras te morressem na boca, e na boca de sede te morreram...porém, aquela música...

Digo-te: numa segunda camada de ti e de quem amas, uma só de vós mesmos...numa segunda camada por sobre a morte a que te abandonaste, nessa segunda camada, celebra uma palavra... Diz-lhe, a quem amas: aproxima-te de mim, aproxima-te e diz-me quem tu és, tu único, belo, só tu, diz-me uma palavra de ti e para ti, canta-me essa palavra no espaço do nosso silêncio, só nosso, o nosso íntimo silêncio...e do que morre por sobre nós nada nosso será, do que morre por sobre nós nada sentido terá; diz-me, amo-te por quem sou, e por quem és, amo-te porque é no Amor, e só no Amor que o corpo me não morre, amo-te porque nada mais importa senão o nosso íntimo silêncio, aquele por onde ressoará a verdadeira música quando sentir mais uma vez as tuas mãos sobre o meu rosto...ali, por onde tudo é habitado senão de nada...de nada para além de nós mesmos, nada, absolutamente nada para além de nós mesmos, de mim e de ti, é lá que caminhamos na Paz, onde tudo é feito de nada; onde tudo de nada ser, renasce no sentido pleno do nosso verdadeiro querer.    


Observação

Português, diria, é ter o mar à frente dos olhos e saber que ali está tudo e nada mais.

Esquece cada palavra que atiras à vida. Deixa que elas corram para o fundo do mar. E aguarda, atento à observação das ondas o retorno de cada sílaba.

Tenho a mão direita nas pedras molhadas do mar. Ao nível dos meus olhos cai a rebentação das ondas, água pesada que trabalha a matéria até que se torne redonda. Espalha-se a espuma e tudo é branco. Ao fundo levantam as gaivotas no instante anterior à chuva que me molhará o rosto. Mantem-te à superfície ... mantem-te à superfície e leva uma pedra redonda contigo.

Julgar fatal o que só cá está para ser transformado, nós, é andar com a bússola partida.


Tinha ali a distância de todas as páginas do tempo, e sabia que nunca findaria livro que fosse. E não seria essa a precisão da felicidade? O movimento contínuo de uma pedra redonda?

É na canção que o teu barco navega sobre a linha dourada no meio do mar.

Deixo-vos no centro daquela aberta de sol. Fechei o círculo, digam que morri.

Das árvores

I                                                                                                                                                            Contam-me as árvores que sou parte da minha alma sempre que me deixo agarrar pelos caminhos. - Caminhos feitos de nada, dizem elas, mas que te agarram pelos pés até que os sintas parte da alma.

II
Ficarei encostada àquela árvore, cujo tronco será o centro da minha respiração. Do meu interior crescem as raízes, no sentido do que não é habitado de antecipação. Todas a palavras serão o início de um eterno princípio. Chamemos-lhe a palavra intacta, aquela que nunca nasceu, e aquela que sempre nasce; corre com a seiva até à copa e saúda no topo as estrelas. O princípio enfim sou eu e o tronco da árvore, e tudo o que brota do nosso silêncio será matéria do silêncio dos astros.

III
Hoje suspenderam-se as pedras e a cada passo que demos afundavam-se os pés no fluxo das árvores. Morreram estrelas e não choramos, fixamos os olhos no céu e em nós de novo nasceram, certos nós da nossa eternidade.

IV
Lá no topo, em espanto, elas dizem: É para ti que voam aquelas aves brancas, não as vês? 

A coroa de espinhos é escárnio e salvação

A imagem é impossível de incorporar, porque é imagem: vazio da mente; vazio de nada e de todo: o todo demente, inverso ao sagrado: o Sagrado: ventre e superfície cor terra do barro. A percepção mediúnica do corpo demente são pontas negras afiadas e enroladas sobre si mesmas, como o ouriço: a imagem é a nossa ameaça: os nossos espinhos: mas virados ao contrário. Os espinhos inteligentemente (da natura) impressos nas nossas células são a própria e elementar vida em contacto com a carne que recusas à conta da tua imagem: imagem a comprimir espinhos até à arritmia. 

A coroa de espinhos é escárnio e salvação. 

As gaivotas dão o sinal ao gritar no ar que respiras:
O grito no ar alto remove a memória e lança-a:
É ali engolida pelo sol que não consegues fixar.
Há certas luzes que não tens permissão de olhar enquanto não tiveres a capacidade de ver a nu cada coisa:
o descanso e o consolo: não podes ver o fogo em espiral dentro e fora de ti:
só o tempo queima a incapacidade de despir os olhos: não os teus próprios olhos. 

A coroa de espinhos é escárnio e salvação.

Há um índio que segura uma serpente em frente a uma fogueira: o amor é o fogo interior: porta luminosa que queima os véus da mentira. Por aquela porta não passa nenhuma imagem, desfaz-se em mil faúlhas à entrada: a imagem que amas é só fogo de artifício: uma mentira a arder. Por aquela porta só entra a verdade: a pureza: eis um Milagre: nunca vês os teus olhos porque vês só a imagem de ti mesmo, mas revês-te puro e inteiro nos olhos daquele que te despe da imagem de ti mesmo.

A coroa de espinhos é escárnio e salvação: como será olhar os olhos de Cristo? 

Do amor em flor

A meia luz caem rebentos das mãos dos anjos. Desliza pelos lábios um rumor de pétalas brancas, o tempo dissolve-se em luas de água pura. Uma palavra incandescente aninha-se no sossego das tuas mãos, e rompe depois pelo corpo como ave em céu aberto ... um gesto em flor sussurrando-me o segredo velado da aurora e do cristal. E o mar inteiro suspenso na perfeição dos teus olhos, toda a luz embevecida na brandura clara de um sorriso. Parto assim na penumbra da eternidade, como um breve sono cadente no silêncio da morte mais bela.

Leve respiro um traço de ar inexistente aqui, um astro sibilante abraça-me e entoa pelo espaço uma melodia liquefata, abre-se no coração uma flor de azul lucilante, e uma criança de sonhos pérola nasce-me na voz, para que em lágrimas sucumba na quimera de si mesma.

Descerram-se os braços e és de novo espelho da minha alma. Demoro-me em ti e na pureza da tua bondade, e sou o ser multiplicado em arpejos de luz, o enlevo de um violino resvala das estrelas e a uma só voz ecoa toda, toda e a nossa essência.     

O tempo é a medida da sabedoria. Sorri às flores que tardam e pousa os olhos em ti enquanto esperas, estás a tornar-te um sábio. 


Uma flor não deixa de ser uma flor só porque nasce 

e vive entre as pedras de um muro.


O poder não corrompe as pessoas, revela-as.


Não olhes o mundo com maus olhos, olha-o com inteligência.


Sol e pedras redondas... 

Entender o que há além da simplicidade é desfazer-se em essência. 

Ali principia continuamente a vida, ali, aonde nada importa saber. 

Se há palavras que importam? 

Só as que transformam, de nada é feito o pensamento.